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sábado, agosto 30 2008 - 01:40
entrevista
RAPPER CUBANO DENUNCIA A SEGREGAÇÃO SOCIAL NO MUNDO SOCIALISTA
[Luís Brasilino entrevista Alayo, do grupo TNT-Rezistencia, para Brasil de Fato]
A periferia cubana ainda abriga uma população mais negra que a das regiões centrais e concentra os trabalhos que oferecem os menores rendimentos. Historicamente, os entornos das cidades de Cuba foram ocupados pelos escravos libertos que criaram, por meio de uma cultura de resistência, um modo de agir e uma linguagem próprios. Dessa forma, os habitantes das periferias podem ser identificados e sofrem com a segregação.
O hip-hop do rapper cubano do TNT-Rezistencia, Alain García Artola, o Alayo, explicita essa situação, ao mesmo tempo que exalta as particularidades e a riqueza musical da Ilha. Ele veio ao Brasil, em janeiro de 2008, por meio de um intercâmbio entre rappers cubanos e brasileiros, iniciado em 2003, pela jornalista Liliane Pereira Braga. Do projeto, saiu o vídeo-documental “Zona Caliente - Santiago de Cuba Hip Hop” (em parceria com o diretor Toni C.), que foi exibido em novembro de 2007, no Hutúz Rap Festival, no Rio de Janeiro (RJ).
O filme traz como fio condutor os integrantes do TNTRezistencia junto de suas mães, e procura mostrar um pouco do cotidiano de Portuondo, periferia de Santiago de Cuba.
Confira a seguir os principais trechos de entrevista concedida por Aloyo ao Brasil de Fato.
Brasil de Fato - Como você entrou em contato com o hip-hop?
Alayo - Para isso, tenho que lhe falar primeiro como o hiphop surgiu em Cuba. Desde a influência de músicos cubanos no surgimento do jazz, sempre tivemos muito intercâmbio com a música dos Estados Unidos. Nos anos de 1980, quando a cultura hip-hop começou nos EUA e se expandiu pelo mundo, o conflito político entre Cuba e EUA tornou difícil a entrada da música pela rádio. A projeção do filme Beat Street estimulou o aparecimento dos b-boys, com as pessoas dançando nas ruas.
Nos anos 1990, o acesso ao entretenimento foi limitado pelo “período especial” [crise econômica ocorrida com o fim da União Soviética, em 1991], principalmente na periferia. Então, as pessoas começaram a se reunir nas ruas para ouvir músicas que chegavam por meio dos cubanos que viajavam ao exterior naquele momento: marinheiros, pilotos de avião... Os MCs começaram assim. Os grupos foram ganhando força e, em 1994, foi organizado o primeiro festival nacional de rap. E Santiago de Cuba, a segunda maior cidade do país, não ficou alheia a esse fenômeno. E eu tenho a honra de ser diretor de um dos primeiros grupos que começou por lá, em 1998. Em 1999, pudemos conquistar uma cena mais ampla, com apresentações em áreas públicas, em todo o âmbito sociocultural da província de Santiago de Cuba e Oriente [a parte leste da ilha], principalmente.
Quais são as particularidades do rap cubano?
Alayo - A música que começamos a fazer e que mantemos até o momento é uma mescla das raízes cubanas, principalmente, a parte da percussão, a parte harmônica, com a influência que temos da música da Jamaica, com o ska, o reggae, o dub, o dancehall, da música funk, do jazz. Fazemos essa mescla para que seja mais autêntico e usarmos no discurso a linha semântica, a métrica própria da forma de falar dos habitantes de Oriente.
E como são as letras? De protesto, cotidiano...
Alayo - Há de tudo. O rap é um gênero bastante versátil e contestador que, em qualquer parte do mundo, sempre vai responder aos interesses de setores menos favorecidos da sociedade. Em Cuba, não é diferente. Existem grupos muito contestadores que se destacaram por essa característica. Temos grupos que falam mais do cotidiano, para tornar a rotina mais suave. E temos, mais recentemente, muitos grupos comerciais, com interesse de entretenimento.
E qual sua opinião sobre as músicas e os grupos comerciais?
Alayo - A tendência da música cubana é se inclinar um pouco ao comércio. Particularmente, não vou censurar essa gente, porque cada um responde por si. Prefiro fazer uma música mais artística, que responda aos interesses das pessoas que estão me escutando e que poderá contribuir com o desenvolvimento das minorias da humanidade. Fico contra apenas o conceito que transmite a música comercial, porque muitas vezes ela é responsável pela deterioração dos valores culturais, ético e morais que temos. Muitas vezes, essas músicas transmitem aos jovens ideais de classe alta, de dinheiro, de agressão, sem enfocar aspectos mais profundos.
Por que o hip-hop tem esse caráter contestador?
Alayo - Tem muitas raízes que o fazem contestador. Principalmente a sua origem. Nasceu nos Estados Unidos e, em um meio social muito contraditório, foi a via de expressão de poucos que estavam em pleno apogeu do problema do racismo. Estava em ascensão a era pós-moderna em que houve uma decepção grandíssima, porque esquecia e apartava a minoria. O hip-hop foi um meio que as pessoas tiveram para escapar dessa realidade dura.
Em Cuba, o rap surgiu num meio mais ou menos similar, num momento em que a população estava desesperada, havíamos vivido uma época de ouro, porque tínhamos o patronato da antiga União Soviética. Porém, quando se derruba o mundo socialista, fazendo surgir o maior império da história, os cubanos ficaram desesperados e muitas necessidades passaram a fazer parte do dia-a-dia. O Estado não tinha uma direção certa e cometeu muitos erros. Contra esses erros que afetaram muita gente é que se faz o rap.
E como é a questão da periferia em Cuba?
Alayo - As cidades em Cuba eram muito pequenas e nelas viviam apenas as pessoas brancas e ricas e, ao redor delas, foram se assentando os negros libertos. Assim a periferia foi se construindo. Em Cuba, temos classes sociais, não definidas e instaladas no poder como aqui no Brasil, mas é visível. As pessoas com menos dinheiro são as que vivem na periferia. Me incluo nisso, essa é a minha situação. Vivo na periferia de Santiago de Cuba, em Portuondo, um bairro pobre a dez minutos do centro da cidade. Nós, da periferia, temos problemas com a habitação, com o sistema de distribuição de água, a rua que não está em bom estado... Numa situação como essa, muitos jovens se voltam aos delitos. Lamentavelmente, as pessoas tentam sobreviver. A essência do delito em Cuba me parece que é essa. Não temos crime organizado. Temos delitos pela sobrevivência.
As pessoas da periferia sofrem segregação?
Alayo - Vamos voltar na história. Os assentados (da periferia) foram os escravos e seus descendentes. Estes criaram sua própria cultura. Uma cultura de resistência, de sobrevivência, que determina o modo de olhar, de caminhar, falar, se vestir. A periferia cria sua própria linguagem, seu próprio código. E é como se reconhecem. Da mesma forma temos como saber quando uma pessoa tem dinheiro. Com a segregação é isso que acontece: foi criado o mito de que todos que vivem na periferia são delinqüentes.
Por que os habitantes da periferia têm menos dinheiro?
Alayo - Se fizermos um estudo demográfico, vamos nos dar conta de que os melhores empregos em Cuba são das pessoas que não vivem nem nunca viveram na periferia. Mesmo com a revolução. E o principal fator é racial. A maioria das pessoas da periferia é negra. E, como na maioria dos lugares do mundo, não temos negros dirigindo corporações, organismos centrais de administração do Estado. As pessoas da periferia têm empregos de artesão, pedreiro, operário, mecânico.
Qual sua opinião sobre o hip-hop no Brasil?
Alayo - Temos muito respeito pelo hip-hop brasileiro, porque aqui os grupos têm conseguido manter uma identidade dentro da globalização que enfrentamos. A essência da cultura hip-hop, que nasceu nos Estados Unidos, está sendo perdida. Quem vem mantendo essa essência são as pessoas da América Latina, nós, com a idéia de ter esse vínculo para fazer frente às pessoas que querem destruir nossa cultura para apropriar-se dela. O Brasil é uma praça muito forte, onde temos muito a aprender.
O que você pode contar do projeto de intercâmbio entre rappers brasileiros e cubanos?
Alayo - Está mais na troca de músicas e informações. Houve a tentativa de um começo de troca mais efetiva em 2004, com a ida de uma delegação brasileira ao antigo festival de hip-hop cubano. Mas isso não chegou a acontecer em função do furacão Charlie. Naquela ocasião, gravei uma música com o grupo NUC, de Belo Horizonte (MG), que estava em Havana. Agora, queremos dar um próximo passo, que é levar as pessoas para participarem do nosso evento em Cuba. Em agosto, teremos o Simpósio Internacional da Cultura Hip-Hop, no qual queremos que haja uma presença bem representativa do Brasil. Teremos muitas travas burocráticas, mas se pode vencer.
Você demorou quatro anos para conseguir vir ao Brasil. Como é essa burocracia cubana?
Alayo - Eu representaria graficamente a burocracia como um monstro, como se representa o monopólio. Ela está atrasando o desenvolvimento dos povos. Em Cuba, a burocracia é o pão nosso de cada dia. Temos um governo centralizado, paternalista e com muitas tendências à burocratização. Essa é uma influência negativa da antiga Rússia. A burocracia constituiu um dos fatores pelos quais a antiga União Soviética se desmembrou. Sendo assim, em Cuba, não é fácil viajar ao exterior. Você tem que fazer uma série de passos para que o governo lhe outorgue uma permissão para sair. Depois, uma outra série de passos para que a embaixada do outro país lhe dê visto. Mas nós, do rap, estamos lutando contra isso. Para que as pessoas percebam quais são os reais problemas que existem na nossa sociedade, para além do problema que nos causa o bloqueio econômico.
O que você pode falar do filme “Zona Caliente”?
Alayo - Foi uma coisa muito espontânea que saiu de uma relação que começou em 2003, quando uma jornalista brasileira foi a Cuba, nos conheceu e tentamos implantar um projeto para resgatar os valores e tradições culturais da comunidade em que vivemos. O vídeo mostra como vivem as pessoas em Cuba, com as necessidades colocadas pelo embargo, e aborda temas importantes como a educação, o pensamento, a formação musical e de valores familiares em Cuba. Recomendo às pessoas que, quando tiverem um tempo, assistam ao filme.
Por que “Zona Caliente”?
Alayo - “Zona” é o lugar de residência das pessoas, principalmente na linguagem da periferia. E Santiago de Cuba é o lugar onde faz mais calor no país, é um verão que não se acaba. “Caliente” também deriva do fato de que Santiago de Cuba foi o berço de todas as principais revoltas cubanas: a libertação dos escravos, a independência e a revolução.
Quem é...
Alain García Artola, o Alayo, tem 26 anos e vive no bairro de Portuondo, periferia de Santiago de Cuba. Está envolvido com o hiphop cubano desde a década de 1990 e é músico do grupo TNT/Rezistencia.
As músicas de Alayo podem ser ouvidas a partir da página eletrônica www.soundclick.com/rezistencia Para assistir ao vídeo-documental “Zona Caliente - Santiago de Cuba Hip Hop”, entre em contato com Liliane Braga, produtora do TNT/Rezistencia e do “Zona Caliente”, por meio do e-mail bragaliliane@hotmail.com
fonte: http://www3.brasildefato.com.br/v01/impresso/anteriores/jornal.2008-01-30.9740967131/editoria.2008-02-07.8972752311/materia.2008-02-08.6049275142
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