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Manifesto (della scrilettura cannibale) - Sandra Mara Corazza
segunda-feira, dezembro 08 2008 - 12:16


MANIFESTO
DELLA SCRILETTURA CANNIBALE




Sandra Mara Corazza




só a antropofagia nos une

escrileituralmente

expressão mascarada da

escrita-pela-leitura e da leitura-pela-escrita

bravos combates das máquinas de guerra

única lei do mundo da écrilecture

síndrome de Saturno

ogro que engole mais que devora

olho esbugalhado boca escancarada

um velho louco

goya

refeição totêmica

freud homenageia frazer

só podia interesses estratégicos

ladainha conhecida a fábula eucarística e a edipiana

parricídio original nada disso

anexação fagocitária é que é um processo canibal

insaciável apetite

writing-and-wreading

transubstanciação do texto

suas palavras são mais do que vestígios ou emblemas

idólatras mágicas brincalhonas

têm assonâncias sobreposições dígitos corpúsculos fluidos

fazem sinapses pontes contatos rimam transformam-se dobram-se

até o infinito

monadologia da palavra-canibal

cada uma interligada afetada por outras

experimenta tudo o que acontece no universo

velocidade estonteante

alquimia fantasística

unheimlich

o verbo enfim se faz carne

começar com a morte ir vida adentro voltar pra morte

fábula de dante

coruja de collodi

quando os mortos choram não é porque estejam se recuperando

é porque não querem morrer

linhas de blanchot

eu não disse nada de extraordinário nem de surpreendente

o que é extraordinário começa no momento em que eu paro

mas já não sou mais capaz de dizê-lo

carta de flaubert a louise colet

nunca olhei para uma criança sem pensar que iria crescer

nem olhei para um berço sem pensar em um túmulo

a visão de uma mulher nua me faz imaginar um esqueleto

passeio de baudelaire

com amada em manhã radiante diante duma carniça

ó deusa da beleza ó sol da minha vida

hás de ser como essa coisa apodrecida essa medonha corrupção

as três graças de rubens

ceifadeira espreita e espera à esquerda

géricault e suas danças de morte

balé cruel violência giratória cerimônia fúnebre

crime sórdido rito selvagem

mulher dá de beber sangue da vítima a um porco

motivo sulfúreo sacrilégio versão transgressiva da comunhão cristã

profana blasfematória teatro iconoclasta homicídio escárnio

film noir

devorar o que se lê or not escrever

that is the question

seguir pegadas da morte

de-qualquer-pensamento-importante-que-a-burrice-usa-porque-ela-é-móvel-e-veste-todos-os-trajes-da-verdade

hölderlin em stuttgart sozinho 36 anos na torre

dedo erguido mostra saída a visitante indesejado

diz-lhe eu sou o senhor deus

anne frank em amsterdã escreve diário no anexo secreto

após subir escada íngreme estreita e só descer pra morrer

emily dickinson em massachussets no escritório-dormitório de

the homestead escreve 1800 poemas-fascicles

mallarmé em paris anota para anatole filho morto aos 8 anos

você pode com suas mãozinhas me arrastar

para dentro da sepultura você tem o direito

eu que acompanho você eu me deixo levar

mas se você quiser nós dois vamos

contra os códigos

contra as conchas protetoras das noções costumeiras

contra a mãe o pai o filho e os santos espíritos

dos sentidos familiares nativos deuses do lar

só interessa o que não foi escrito por nós

em sua indomesticidade

escrileitor à deriva

perdido num mundo que não compreende

não sabe o que quer dizer

quando diz não sabe o que significa

nem pode ter certeza

chave quebrada na fechadura

porta sem

vouloir dire

estamos saturados de certezas sem suspeita

extenuados com verdades não postas em drama

ninguém tem direito de acabar com qualquer enigma

nem de parar de nos assustar

ninguém tem direito de pôr em ordem o devastado o irreconhecível

o repugnante o turbulento os colapsos as estações clandestinas

as figuras moribundas as artistagens marginais deletérias

os heróis como sombras de si mesmos

só queremos penas

capitais

e a vida que resta é usada para escrever-e-ler textos

feridos decapitados enforcados estrangulados fustigados esquartejados

monumentos de papel dissidentes insulares feitos em jardins de suplícios

de um mundo sem deus sem senhor sem superego

textos-náufragos

scrilettori na jangada de medusa

com a energia do desespero se autodestroem

exercícios homicidas arruaças rixas motins combates furiosos orgias de carne caos belicoso

hidras e leviatãs

cuja(s) cripturas viram monstros de cem cabeças

canibalismo generalizado

o que não os deixava adernar era o exato do fato a realidade da língua

o símile a metáfora a metonímia a sinédoque o significante

a biografia vestida a literatura permeável

entre o mundo interior e o mundo exterior

raiva imensa contra textos-burocratas

que acham que lêem e que escrevem

só fantasias de scrilettura

os empurram pra barriga do tubarão

textos-filhos-de-moitas

partejadores de formigas-cortadeiras

textos encontrados amados e odiados ferozmente

com toda força da ironia por bouvard e pécuchet

no país das cobras grandes

vão a bailes de botas de cano bem alto

enojados

é porque não querem sintaxes nem coleções de gramáticas

nem velhas semânticas nem itálicos nem letras maiúsculas nem pontuações

é porque não querem aqueles que

sempre sabem sempre o que estão lendo e

sempre o que estão escrevendo sempre

em que campo em que área

se é crítica se é pesquisa se é literatura se é filosofia se é matemática

sociologia filologia psicologia educação religião direito anal genital

se é ciência dura ou mole de patinho alcatra filé mignon

fronteiriço inter trans multi cultural continental global

desperdícios tristes em separado

estéreis em combinações variadas

eruditamos criterizamos pontuamos tudo

esquecemos a leveza a rapidez a exatidão a visibilidade a multiplicidade da

expressão

saudades da escrita acadêmica não há

seu arcaísmo estourou faz tempo

já encheu até os que achavam que estava bem

ela se deformou como pneu furado

arrebentou como balão por demais assoprado

acabou-se sua história e morreu sua vitória

textos-grotescos

consciência participante rítmica religiosa

melancolias culpas desesperos

relinchos maldades paraísos artificiais

textos-bufos

style empesé paquidérmico preciosista

hiperbólico bombástico retórico prolixo

textos-floreios

disciplentes frívolos phrases banales

et qui parlant beaucoup ne disent jamais rien

textos-adestrados

não sabem que l’adjectif est l’ennemi du substantif

di meliora dent

légèreté
os filósofos fazem não-filosofia os leitores fazem não-leitura os críticos fazem não-crítica os escritores fazem não-escrita

em plena academia fazemos o indiscernível

écrilectures para scrilettori

indecidíveis

a pesada couraça ganha asas

curta é a dor eterna a alegria

dos que não sabem e não descobrem

inversão e invasão são ilusões só para morais e imorais

um quadro não é só linhas e cores

a estatuária não é só volumes sob a luz
ágeis e ilógicos

são o texto-saltimbanco o romance-invenção a poesia-infantil
desvios libertinos

práticas ocultas na genealogia das idéias
línguas dialetais menores milionárias nos erros

como falamos escrevemos lemos gostamos

há luta pelo caminho dos textos

na terra dos acadêmicos

há fardas aparelhos de estado fascismos ludibriações

e outros-que-tais

similis similis gaudet

estamos nos lixando

queremos a dionização estética

só não copiar só não repetir só não definir só não dicionarizar

só não reproduzir igualzinho

queremos textos nus músicas escovadas telas lixadas estatutária sem molde

não métodos não métricas não metas

já chega

a arte não vai voltar pras elites

há construcionismo
rotamentos dinâmicos de fatores destrutivos

trabalho contra o naturalismo

desmanche da figura fragmentação da morbidez romântica

substituição do mundo catalogado nos livros

fios fulgurações ondas marítimas artísticas atmosféricas
invasores de finalidades arranjos monstruosos

eloqüentes pavores de um não-senso puro

escrever-e-ler com olhos livres e mãos ciclópicas

sem acertar o relógio sem ajustar o foco

sem mirar nos alvos nos câmbios

o problema é não ser da época

o estado de graça substitui o estado de adesão

originalidade literária pra inutilizar repetição acadêmica

não acreditamos nem numa nem noutra

escrevlemos nos interstícios das duas

temos indigestões de sabedoria universal

dor de barriga de tradições pedagógicas

úlcera de reminiscências metodológicas

abscessos de cânones literários

náuseas de resultados científicos

tédio de comparações provadas entre pesquisas

cancro de repetitio est mater studiorum

bárbaros crédulos pitorescos

infinita la commedia

somos contra os écrivants

importadores de enlatados limpos e acolhedores

e suas écrivances exportadoras de entalados habitáveis

queremos

a existência palpável da vida dos écrivains

e suas écritures exterminadoras de atmosferas soporíferas

o transe o estupor a confusão os projetos os materiais

os copos as rolhas a tinta derramada

as garrafas nadando pelo chão as cadeiras decapitadas

o fartum

textos-bovarys

textos-lúbricos do mapa-múndi

lidos-e-escritos em coches fechados para fins sexuais

o devir-revolucionário da salamandrina escrileitura caudada

de-pintas-amarelas que contêm glândulas de veneno

a hibernar em ocos de árvores

cuja leitura sai magicamente das chamas

hábitos noturnos ativas posturas anti-predatórias

liberação de substâncias tóxicas

queremos

convulsões musculares elevação da pressão sanguínea hiperventilação cerebral

desse estilo reptiliano

quando afirma interroga

maior que a revolução maior que o amém

revoltas produtivas de saberes com epilepsia esquizofrenia dispepsia

sem elas

as palavras não pensam

andaríamos mal se textos-canibais agonizassem entre cadáveres

sem que estivessem mortos

se fizessem a glosa das grandes obras

se sujeitassem seus personagens aos grilhões da filiação

é que eles habitam um necrotério ambulante

cujos hóspedes já foram exumados

o homem do iluminismo não conheceu o canibalismo

azar da velha aranha nefasta

com o seu chinesismo königsberguiano

pra ele por certo um avatar da superstição

não da civilização racional universal

a enciclopédia recusou ao canibalismo um verbete

só no artigo anônimo caraíbas

pelo exotismo coisa de selvagem prática de tribos autóctones réprobos

humanos se muito na aparência

e deu chegou foi

tem mais não

mas é assim mesmo que queremos

wreaders vadios vagabundos polígamos politeístas passeando nus

vivendo muito escrevendo lendo de quatro patas

na noite quando mais escura está

acocorados em riba das folhas catando seus carrapatos ponteando na violinha em toque rasgado botando a boca no mundo

cantando na fala impura as frases e os casos

textos que vêm da loucura e de nenhum outro lugar

sobrevivem numa superfície despedaçadora

desumana imperturbável hiperbórea

de condição primitiva de animalidade triunfante em estado de natureza torpe

sobre os quais rousseau jamais se debruçou

porque reina ali a tirania dos corpos

inclinações apetites instintos

desejo canibal

textos que comem o que aprisionam

não em práticas solitárias onanistas tristes no final

repartir restos das vítimas requer

atos coletivos comunitários ebriedade amigável culinária festiva

nem crus nem cozidos

que se estropiem os etnólogos

bem assados preparados

pelo fogo que purifica o que na carne resta da quintessência humana

órgãos sangue pele nervos artérias veias capilares

catarse não dos comestíveis

amorfati dos comensais

textos-idiotas

a idade de ouro anunciada pela

literatura deu em quê

cadê a mina do legível e do escriptível

e os livros de auto-ajuda & cia

além de vomitarem o amor e o bem-querer descobrem a felicidade

tristeza é a prova dos nove daqueles que na

flor da idade já são anciãos

no torvelinho das emoções há textos que dizem tanta coisa que não deveriam dizer

nenhum vem a este mundo para ofender nem ser ofendido

nem para fazer com que outros se enfureçam ou se magoem

ah o pacífico viver e deixar viver ah o formoso privilégio dos plácidos

ah a santidade do texto-bom-moço ah o espírito puro do texto-seminarista

ah a garantia do texto-científico ah a honra do texto-verdadeiro

ah a posição de responsabilidade do texto-amo da casa

ah o empreendedorismo do texto-liberal ah a sustentabilidade do texto-empresarial

ah ter textos que respondem quando se pergunta

quem sou onde estou para que sirvo para onde vou

envenenamento profissional

décadence

só textos-bizarros são comestíveis

quais livros são para pouquíssimos e já nascem póstumos

quem mais além de nietzsche tem a coragem de escrever para o proibido

a predestinação para o labirinto a experiência de sete solidões

quem tem ao ler novos ouvidos para novas músicas

novos olhos para o mais distante

uma nova consciência para novas verdades

vontade para a economia de grande estilo

manter juntos seu entusiasmo e sua força

com incondicional liberdade ante si mesmo

quem levanta a cabeça

quem se olha nos olhos

quando escreve-e-lê

além do gelo da morte da fraqueza da compaixão

viver-escrever é ir deixando pra trás

sinos dos mortos soam

mas eles não sabem que estão mortos

bifurcações de beleza são motores da existência

desencaminham deteriorações da scrilettura

bonomia não pedir perdão não virtude não

paz viciada não compromisso covarde não tolerância que tudo compreende não

resignação não animal de rebanho não

sentimentos superiores não ideais da humanidade não

moralina não por favor

plenitude tensão êxtase acumulação de forças

do-prazer-de-ler-ao-desejo-de-escrever

desejo-de-escrever-pelo-prazer-de-ler

energia vital no salto pro desconhecido

da divina à comédia humana

renunciei antes de nascer de beckett preferia não de bartleby

banquete de platão anticristo de zaratustra

sthendal george sand anne rice stephen king

robert walser franz kafka thomas mann stephan zweig

elias canetti walter benjamin kurt tucholsky fiódor dostoiévski

o idiota crime e castigo os demônios irmãos karamazov notas do subterrâneo

nélida piñon lygia fagundes telles cecília meireles clarice lispector

tchekov tolstoi jack london kleist

victor hugo lamartine alfred de musset michelet millôr

guimarães rosa haroldo de campos augusto dos anjos carlos drummond de andrade

goethe balzac h.p.lovecraft paul auster

robbe-grillet sacher-masoch marquês de sade

jarry burroughs erasmo de rotterdam virginia woolf

teresa filósofa joyce bloomsday 16 de junho

zola realismo neo-realismo proust

casemiro de abreu castro alves

homero hesíodo mário quintana sartre l’idiot de la famille

hilda hilst nathalie sarraute marguerite duras

artaud bene oswald mário de andrade rimbaud faulkner

butor camus byron dom quixote

eugène sue dalton trevisan conde de lautréamont

musil machado de assis érico vérissimo

andré breton paul éluard

plínio marcos ghérasim luca charles péguy

céline fernando pessoa lou andréas-salomé

rilke fitzgerald caio fernando abreu

anaïs nin doris lessing lewis carrol henry miller

jack kerouac charles bukowski

carrasco do romantismo

madame bovary c’est moi

sem dúvida tivemos mais do que mereceríamos

textos-canibais

selvagens avançam transbordam exalam fogo se consomem no fogo se aniquilam no limiar dos sentidos vivem através de um sonho fornicam com o real

como blocos de palavras são reais como figuras de sonho os seus reais são romances vivos

com a embriaguez com o arrebatamento com a pulsão da primavera

escrevem-e-lêem

o que está em sua paixão sob a primeira atração do amor

coisas novas animadas ardentes encantadas

fazem apolo reunir o dioniso asiático que chegou despedaçado

pássaros de mau agouro gritarem sons de desgraça

o eremita de croisset nascer em dublin

ou no egito em belém do pará no santuário de apolo em delfos

ver yvetot e morrer

sorrir de maneira encantadora se beliscar morder a língua

galileu negar publicamente que a terra girava ao redor do sol

sua linguagem

não é brassière nem sutiã nem colete salva-vidas

ela é uma criança e nós somos seus brinquedos

não fomos nós que chegamos tarde

amoureuse

você é que chegou cedo

quimera ambígua

corpo tricéfalo cabeças não idênticas

trindade funesta das parcas erínias feiticeiras

súcubos mitológicos aves carniceiras de rapina

apêndices mortais colo bico garras

canibalismo semântico

ave-eva iconográfica

sincretismo inédito

linguagem-esfinge

anjo monstro prostituta

asas de cisne patas de felino tiara de rainha seios de cortesã

em seu panteão maléfico

deuses se fazem demônios e deidades se tornam baratas

pela mistura dos valores

vítimas gêneros complexos produtos bastardos

devoração de passantes que não resolvem seus enigmas

donde a nossa perdição de corja

ainda bem

por que derramar o canto dos textos aos ventos aos gorgulhos às luzes insensíveis

não deixes que a esfinge-grega mantenha relações familiares

que ela seja esfinge-negra sempre transgressiva e blasfematória

que se agarre à frase de um autor como um ácaro

com três garras em cada uma das oito pernas e mais duas pinças

que use suas expressões como endoparasita no hospedeiro

que apague idéias falsas e as troque justo por idéias

antropofagia do plagiar pra transformar

criação da novidade não apazigua não tem retidão não tem comércio

implica

nunca achamos que o melhor é não escrever nem ler

e ver os textos morrerem logo

não admitimos benefícios da obediência e da imitação

honrarias desonram

títulos nobiliários degradam

críticos entorpecem

for ever reading never to be read

quem precisa mais de quem

o leitor do escritor ou o escritor do leitor

se achar que vale mesmo a pena discuta isto mas não conclua nada

sustente o paradigma sem representações e a argumentação sem simploriedade

deixe que o arranjo das figuras se transforme em pesadelo

use os dispositivos da feitiçaria da fábula da fantasia

máquinas canibais par excellence

les machines désirantes de deleuze-guattari

corpos-sem-órgãos de textos estreitam-se em abraços mortais

o cutelo da guilhotina mostra seus efeitos cortantes

a simbiose a coalescência a fusão compõem o seu teatro de marionetes

o moloch de seu papel mói desmancha tritura devora

frases se derramam dentro deles mil línguas mil fluxos clamam num alarido de bordel

esquecidos dos totens e dos tabus

é só por isso que

erguem barricadas contra

cuidado

a lei é policial

castiga os rebeldes

a lei é cega

sem gratidão os cavalos de diomedes

devoram o pai que os alimentava

a lei é despótica

o minotauro exige de atenas tributos de carne fresca

cuidado

a república atual dos textos é uma necromancia

sua arqueologia de criação é medíocre

le secret pour être ennuyeux c’est de tout dire

danem-se

textos-canibais

são marginais

têm medo de ter sucesso na vida

fadiga espiritual hiperespiritualização lógica demais

contra os que ganham pontos e verbas

não se trata de jalousie

desde os reis os republicanos seguem sendo analfabetos

dizem aos autores-jornalistas de sucesso

ponham isso no papel mas sem muita crítica

fazem-se assim empréstimos e gravam-se notícias favoráveis

a hora-do-brasil começou quando o padre vieira

levou o dinheiro da comissão pra portugal e nos deixou esse tipo de lábia

uma hora cristã

contra os gênios que lêem-escrevem-correm atrás de prêmios

por uma escrileitura não rubricada não encomendada

que não seja antítese da vida

dispersa progressivamente

jogada a fundo perdido

não na bolsa de valores

no jogo ideal do passa-anel sem anel

valem o calor a umidade o cheiro que circulam

da minha pra tua mão

do teu pro meu texto

escrileitura-antropófoga

tem o seu próprio bestiário

eu vos envio como textos-lobos no meio de textos-ovelhas

sede imprudentes como as serpentes

odeia textos-cabeças-moles

que têm sangue de pombos e falta do fel amargo

lamartine pensamentos de pascal caracteres de la bruyère máximas de vauvenargues e de la rochefoucauld

felizmente isidore ducasse corrigiu

em pascal

se a moral de cleópatra fosse menos curta

a face da terra teria mudado

nem por isso seu nariz teria ficado mais comprido

em dante

deixai todo desespero ó vós que entrais

como se vê o que anda no torpor pode recobrar vida e calor

escrever em parceria não mesmo

antropofagia é sempre mútua

precisa ter dois ou três ao menos pra se ser louco em bando

conceber espírito com corpo

antropomorfismo necessita de vacinas antropofágicas

pra equilibrar escrevências anti-canibalescas

sabichonas inquisições exteriores

enfraquecedoras estreitezas a apagarem tudo o que ali arde e

aqueles que lêem-e-escrevem com a naturalidade

de uma galinha botando ovos

pelo lugar apropriado

só atendemos ao mundo da arte

só escovamos bem o cabelo do estilo para que brilhe

nunca atendemos à religião da arte

dada a insignificância de sua fanfarronice

às insígnias de sua preguiça

ao viveiro de sua ignorância

à onipotência de seus inspirados

illustres confrères

queremos a justiça do grama de emoção poética

o galope nas patas o vento na cara a gargalhada arrancada aos pulmões

atmosfera ofuscante que há em cada pensamento e palavra

pernas e roupas perfumes e jóias aroma de café e sabor da geléia de cerejas

sol que faz a pena deslizar ludicamente

já chega da codificação da ciência e da magia

já chega de eficiência e propriedade senso prático e ponderação

prazeres regrados doçura melancólica

transformação da lealdade aos tabus em traição aos totens

dá tudo no mesmo

contra textos-burros

reversíveis às idéias de esperança elevação ternura

submetidos às idéias objetivadas

cadaverizadas

queremos textos-ursos

em seus covis em suas tocas em suas velhas peles

e que eles vivam longe dos louváveis sentimentos humanos

pensamento mais do que dinâmico

escrileitura em variação-contínua

contra textos-sublimes

vítimas do sistema das estruturas das instituições

fontes de torpores bloqueios mesmices ressentimentos queixas

ninguém espera ansioso por eles

são alvos e sem graça tímidos convenientes palatáveis

lancemos bombas amnésicas contra esses trens de carga

procedimentos sobrenaturais

de ódio à sua humanidade de ódio à sua democracia

de desinteresse por sua política

procedimentos antipatrióticos

de vidas selvagens no deserto de envolvimento com textos-resfolegantes

de estilhaçamento de torres de marfim virtudes positivas bem-estar cordial

com montaigne fazer os textos dormirem

sobre travesseiros cheios dos pregos de

dúvidas rebotalhos devires desejos caosmos

textos-infinitos

cortam minhocas ao meio e suas cabeças desenvolvem novas caudas

o mais espantoso é quando as caudas desenvolvem novas cabeças

animais desembestados

morte e vida das hipóteses

é preciso crueldade para com o eu

nada de subsistência conhecimento verdade solidez graciosos arredores

alegria recatada entorno prudente contextos explicativos

ornamentos expostos à contemplação

sentimentos de serena majestade fé inquebrantável

ano que vem em jerusalém

leshaná habaá bi ierushalaim

babaquices

espasmos ondulações lambidas flamejantes de dragões

antropofagia

hostilidade contra elites das teleologias

do progresso do racionalismo da cidadania

plantas de estufa escaninhos categorias

braços fartos de textos-medíocres

fraudes

exuberantes trepadeiras em comunicação com a terra

textos-canibais

não ponhas palavras em nossas bocas e em nossos textos

fizeram de conta que se catequizaram e foram pular carnaval

caminharam até os tronos chafurdaram nas pocilgas

agitaram bandeiras vermelho-sangue ou pretas

alavancaram a revolução até as raias da fanfarronice

o texto-índio se muniu da boca-de-senador

comprou celular notebook vendeu a madeira as plantas a floresta amazônica

antes figurou nas óperas de alencar cheio de bons sentimentos

portugueses ora pois

fingimentos

já temos os companheiros proletários

elevados ao mesmo nível de estupidez alcançado pela burguesia

pra que mais

já amamos as almas caridosas a boa vontade as coisas do coração

fizemos guerras lutas étnicas campos de refugiados matamos crianças

encarnamos o espírito dos séculos XX e XXI

ganhamos até légion d’honneur por tudo isso

precisa ir além

o mundo se transforma a cara da terra não é a mesma

e os textos-antropófagos

relampejam raios com os olhos trovejam trovões com vozes potentes

terremotos horripilantes saraivadas de granizo lavas de vulcão

na língua sua que é a da nau dos loucos

catiti catiti

imara notiá

notiá imara

ipeju

ó lua nova ó lua nova

assopra nos textos

de fulano e sicrano e beltrano

lembranças de mim

[roubado de o selvagem de couto magalhães]

correr e agitar-se e estourar a bexiga e desembuchar e parir

é o movimento de textos-canibais

nada aprender do aprendido

desaprender e não prender

empreender trabalho de encontros e de borracheiras

sibilar sibilante sibila

fazem voltar almas que andavam ausentes por longo tempo

pelo vale da morte cavalgam a distribuição dos bens físicos morais escravos

e pensar que se achou poder transpor o mistério da escrita e da leitura

com o auxílio de formas gramaticais

um dia

perguntei a um-alguém o que era escrevler

e o pior ele respondeu

escrevler é a garantia do exercício de possibilidades

este um-alguém não merecia nem a comida que comia

só merecia os textos que escrevlia

ninguém sabe o que é escrevler nem o que é garantia

nem o que são possibilidades

escreve-lê-se porque se montam escrileituras

fabulam-se notas não memórias

deliram-se puncta

picadas pequenos buracos pequenas manchas pequenos cortes

lances de dados acasos que pungem mortificam ferem

cá entre nós

este um-alguém não merece ser comido

muito duro pra mastigar

há que se ter bom-gosto também pra ser canibal

só não há determinismo onde há diferença plural amizade cumplicidade

rosário de prazeres voluptuosidade blocos de sensações

rumores da língua grãos da voz

mas se você não tem nada com isso

pode martelar as identidades dos seus textos

caro amigo

junto com a sua porque ela deve estar uma porcaria

livros em baús cheios e prateleiras suspensas

entram como diabos nos corpos de grifos mutilados

esfregam seus pêlos em poças de lodo

velhas tarântulas negras enchem taças de orgias

com o sangue dos seus pescoços

transfusões

contra as sublimações antagônicas

papagaios são humanos

perroquet é diminutivo de pierrot

parrot vem de pierre perico deriva de pedro

aristóteles e plínio confirmaram

papagaios são libidinosos quando embriagados

também sofrem de gota aftas úlceras de garganta

félicité-antropófaga de un coeur simple soube disso antes de todos nós

bem feito

contra a verdade e o juízo dos escreventes visionários

é mentira muitas vezes repetida

por isso foram textos-idealistas que vieram textos-moralistas que ficaram

textos-charlatões textos-trapaceiros

cheios de prescrições salvações hábitos duma civilização

que os scrilettori-canibais vão comendo

porque são fortes e vingativos como os jabutis

se o diabo é a inconsciência do universo criado

guaraci é a mãe de textos-viventes-videntes

jaci é a irmã incestuosa de textos-vegetais

textos-germinações

não têm especulação mas adivinhações

não fazem comunicação embaralham suas cartas

realizam modulações irrepetíveis migrações ambigüidades

fogem dos estados tediosos da criatividade espontânea do estetismo estéril

são anti-esclerose e anti-rigor

conservações conservatórios amarras do especulativo

do discurso logocêntrico ao discurso por vir

pela desfuncionalização da linguagem

o pater é morto junto com a moral da cegonha

com a medicalização da existência com a butoxalização da aparência

sacrifício dos primogênitos

ignorância dos códigos + fantasias + curiosidade + bando + continentes + exercícios despersonalização + heterogeneidade + hybris = usina

vs.

negociozinhos privados + reacionários + familialistas + territorialidades + campos fechados superegóicos + arames farpados + fronteiras + nações +

representações = teatro

partir de um profundo repúdio ao gênero humano

para chegar à idéia de deus

a-escritura-doida-e-a-leitura-infame não precisaram

porque são bravas e têm a espessura da palha do artista da fome

grosseiras e cruéis o bastante para pisar nos bons e maleáveis costumes

anjos da queda não abrandam seus corações

textos-mornos

choramingam como bebês nos cueiros

berram como bezerros

e elas firmes

nada têm a ver com tais infortúnios

afinal sofrem injúrias abjetas desde que nasceram

a escrileitura-canibal não julga não normaliza

apreende a parte de sombra das palmeiras da pindorama

contra

imposição fonte do costume

palavras de cólera transformadas em sensatez

lado doutor hermenêutico citações de página inteira

autores famosos gabinetismo burocracia se auto-alimentando

vocações profissionais coletividades organizadas ações espontaneístas

frases feitas falar difícil escrever enigmático

a lã dos carneiros teve de ser pintada como lã mesmo

contra

o modelo as cópias os pretendentes sem aberrações

a realidade sem loucura os fatos sem cipós maliciosos

inveja usura calúnia exploração aviltamento prostituição assassinatos

pecados e pestes de povos civilizados

ação escrileitora

de experiências renovadas de queima do tempo nas praças

de alegria com o largado e o descoberto

de supressão das paralisias do pensamento

por procedimentos fantasmagóricos

acreditar em nada fazer estrelas

engolir inimigos sacros especialmente são paulo

lutar contra o cotidiano mecânica de fazer versos oficinas de escrita questionários morais de leitura

humana aventura terrena finalidade

com alicerces molhados

sem derramar lágrimas

sem o mais alto sentido da vida

contra

a poesia que foi pau-brasil e pau-no-brasil

agora

scriletture-de-pau-e-pedra

sem sala de jantar domingueira

sem passarinhos cantando na mata resumida das gaiolas

sem sujeito magro compondo valsa pra flauta

sem maricota lendo o jornal

nele já não anda o presente

hoje só o fantástico

agora

textos-de-pau-e-pedra-com-e-sem-brasil

sem fórmulas pra extemporâneas expressões

senão vão sufocar

outra vez

estado de inocência absoluta

novas

perspectivas notas escalas

novos

conceptos perceptos afectos

pela invenção e pela surpresa

novas

no




(in Os cantos de Fouror: escrileitura em filosofia-educação. Porto Alegre: Sulina, Editora da UFRGS, 2008. p.21-47).


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